domingo, 18 de abril de 2010

Oração de Joelhos – É Sempre a Melhor Postura ou Não?

Em meio da comunidade adventista, pelo menos entre os adventistas tradicionais, existe o costume de, quando confrontados com alguma questão de implicações espirituais, se recorrer ao Espírito de Profecia para saber o que Deus através de Sua serva revelou como sendo a Sua vontade concernente àquele determinado tema.

Mas às vezes são encontradas entre as declarações da senhora White, algumas que, sob um exame superficial, até parecem contraditórias. Porém, o fator mais determinante muitas vezes para que os textos não venham a ser “compreendidos”, é a falta de disposição e sinceridade do pesquisador em saber realmente qual é a vontade de Deus, pelo fato de que a mesma fere a tão acariciada conveniência.

Um tema que tem despertado grande controvérsia hoje é a questão da postura correta na oração. Declarações do espírito de profecia são utilizadas para defender ambas as posições em voga, a saber, que a única posição apropriada para a oração é de joelhos, e por outro lado, que não é necessário estar de joelhos para se elevar uma prece a Deus.

O fato é que Ellen White mantinha uma opinião equilibrada a respeito desse assunto, só que para que se possa tirar a conclusão correta, o estudante deve se limitar ao que as declarações expressam na hora de interpretá-las. Aqui estão algumas declarações:
“Os homens não podem prostrar-se de joelhos nas ruas e nos mercados para oferecer suas orações a Deus”1. “Eu quisera impressionar o espírito de todo obreiro da causa de Deus com a grande necessidade de contínua, fervorosa oração. Eles não podem estar constantemente de joelhos, mas podem erguer o coração a Deus. Assim foi que Enoque andou com Deus”2. “O cristão não pode estar sempre de joelhos em oração, mas seus pensamentos e desejos podem ser de contínuo elevados ao Céu”3. “Não precisamos esperar por uma oportunidade para ajoelhar-nos diante de Deus. Podemos orar e conversar com o Senhor onde quer que estivermos. Não há tempo nem lugar impróprios para erguer a Deus uma prece. ... Entre as turbas de transeuntes na rua, em meio de uma transação comercial, podemos elevar a Deus um pedido, rogando a direção divina, como fez Neemias quando apresentou seu pedido perante o rei Artaxerxes. ... Podemos falar com Jesus ao caminhar, e Ele diz: Acho-Me à tua mão direita. Podemos comungar com Deus em nosso coração; andar na companhia de Cristo. Quando empenhados em nossos trabalhos diários, podemos exalar o desejo de nosso coração, de maneira inaudível aos ouvidos humanos... Para orar não é necessário que estejais sempre prostrados de joelhos. Cultivai o hábito de falar com o Salvador quando sós, quando estais caminhando, e quando ocupados com os trabalhos diários”4.

O que todos estes textos têm em comum? Eles partilham do conceito de uma vida de oração, que não depende de ocasião para que seja elevada uma prece, mas que, em meio de quaisquer atividades que possam estar sendo desempenhadas, podemos, ao mesmo tempo, elevar os nossos pensamentos a Deus e manter uma conversação com Ele.

Mais ainda há uma outra classe de citações:
“Deus precisa ser buscado de joelhos”5. “Tanto no culto público, como no particular, temos o privilégio de curvar os joelhos perante o Senhor ao fazer-Lhe nossas petições. Jesus, nosso Exemplo, 'pondo-Se de joelhos, orava'. Luc. 22:41. Acerca de Seus discípulos acha-se registrado que também se punham de joelhos e oravam. Atos 9:40; Atos 20:36; Atos 21:5. Paulo declarou: '...me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.' Efés. 3:14. Ao confessar perante Deus os pecados de Israel, Esdras ajoelhou-se. Esd. 9:5. Daniel 'três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus'. Dan. 6:10.”6. “Tenho recebido cartas perguntando-me sobre a posição que deve ser assumida pela pessoa ao fazer oração ao Soberano do Universo. Onde obtiveram nossos irmãos a idéia de que deviam ficar em pé quando oram a Deus? Alguém que por cerca de cinco anos se educou em Battle Creek foi solicitado a fazer a oração antes que a irmã White falasse ao povo. Mas quando o vi pôr-se em pé enquanto os lábios se iam abrir em oração a Deus, minha alma foi levada no íntimo a dar-lhe uma repreensão pública. Chamando-o por nome, disse-lhe: "Prostre-se de joelhos!" Esta é sempre a posição apropriada. ... Quando em oração a Deus a posição indicada é prostrado de joelhos. ... Tanto no culto público como no particular é nosso dever prostrar-nos de joelhos diante de Deus quando Lhe dirigimos nossas petições. Este procedimento mostra nossa dependência de Deus”7. “Será possível que com todo o esclarecimento que Deus tem dado a Seu povo sobre a reverência, pastores, diretores e professores de nossas escolas, por preceito e exemplo ensinem os jovens a ficarem em pé na devoção, como faziam os fariseus?”8.

E aqui, quais são os pontos chave que estas citações tem em comum? Uma palavra chave que se pode destacar é “culto”. Em se tratando de momentos especificamente reservados pelo cristão para adorar e orar a Deus, Ellen White claramente define que existe apenas uma posição apropriada, e essa é prostrado de joelhos. Ela diz que, tanto no culto público como no particular, é tanto um “privilégio”, como um “dever” se prostrar de joelhos perante o Senhor. Ela diz que “esta é sempre a posição apropriada”. De forma alguma, ao analisar-se apenas o que está escrito e seus contextos, pode uma mente sensata extrair de tais declarações, uma autorização para não se prostrar quando haja a oportunidade.

Assim se harmonizam todas as declarações feitas pela pena inspirada. E para isso, não é necessário forçar os textos ou inserir pensamentos que não estão neles expressos. Deus quer que haja uma reforma a esse respeito entre o povo de Deus e que toda a irreverência seja abolida do meio de Seu povo escolhido.

Referências

1 Este dia com Deus, pág. 230
2 Evangelismo, pág. 681
3 Filhos e Filhas de Deus, pág. 99
4 Mensagens Escolhidas, vol. 3, pág. 266 e 267
5 Filhos e Filhas de Deus, pág. 279
6 Obreiros Evangélicos, pág. 178
7 Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 311-313
8 Ibidem, pág. 313

4 comentários:

  1. Prezado Jean,

    parabéns pela iniciativa de publicar textos da irmã White acerca de um a tão polêmico. Sou adventista há pouco tempo e já me vi envolvido nessa questão e muito criticado, por crer que nos cultos e momentos de adoração devemos nos colocar, reverentemente, de joelhos perante nosso Senhor (ou não cremos que Ele está presente em nosso meio?). Porém, não devemos nos privar de conversar com Deus nos momentos nos quais não podemos nos ajoelhar, seja qual for o motivo. Infelizmente, temos visto (ou melhor, ouvido) muitos usando a palavra "equilibrio" de forma equivocada, a fim de justificar certas atitudes que, somente no futuro, perceberemos suas consequências. Que Deus o abençoe.

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  2. Oi caríssimo

    Graça e paz

    Espero que não selecione apenas aqueles comentarios que estejam de acordo com seu ponto de vista.

    Sua atitude foi bem-intencionada. Mas eu não quero discutir a sua atitude, e sim o que seu artigo quer insinuar: que a igreja está desviada quanto a questão da postura na oração e deve buscar uma Reforma neste quesito. Até que ponto sua observação é verdadeira?. Pelo que sei do que tenho estudado e lido desde os dias de Seminário, sua declaração está forçada. E além disso, você promove uma atitude errada em nossas igrejas por meio de seu artigo.

    Você cita a acasião em que EGW repreende a um irmão que está orando em pé na abertura do culto, naquela oração que antecede a apresentação da mensagem. Eu também creio que nas aberturas de nossos cultos públicos (quando possível) devemos fazer como ela bem orientou naquela ocasião: de joelhos.

    Quanto à declaração "Ellen White claramente define que existe apenas uma posição apropriada, e essa é prostrado de joelhos", recomendo algumas fontes para repensar se esta postura é sempre a correta. E se voce de fato busca a luz, deveria publicar esta minha observação em sua página a fim de que seu artigo não crie problemas. Eu já presenciei cada uma por causa dessas atitudes extremistas! Desde igrejas que só oravam de joelhos, até igrejas que ficavam metade em pé e metade de joelhos nas orações. Este é o perigo quando se diz que "apenas uma posição apropriada" para orar nas igrejas é de joelhos.

    Mas segue uma bibliografia.

    Você pode pesquisar no livro de BUENO, Mauro. "Ensina-nos a orar": uma análise sobre a postura e atitudes corretas na oração. São Paulo, Edição do autor. 2001, que estabelece estudos meio-exaustivos com base na Bíblia e no Espírito de Profecia;

    Também PELLISTRANDI, Stan-Michel. Grandes civilizações perdidas: O Cristianismo Primitivo. Rio de janeiro, Editions Ferni. 1978, que estabelece um estudo abundante com base na arqueologia e na iconografia, especialmente das catacumbas.

    O fato é que na Bíblia Jesus ora de pé (Jo 11.41), ora prostrado (Mt 26.39), ora de joelhos (Lc 22.41)...

    Outro fato é que na iconografia, na arqueologia e na historiografia da igreja primitiva sabe-se que a postura de orar em geral era de pé com braços abertos e de cabeça erguida (Cf. Pellistrandi, p. 121). Tmabém nos dias do AT, o judeu sempre orava de pé, a não ser em ocasiões especiais (Cf. Bueno, p. 48-49), posição que foi assumida pelos primeiros cristãos, conforme dados históricos e arqueológicos (Bueno, ibid).

    continua..........

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  3. Com base em EGW, a postura de inicio de reuniões deveria ser de joelhos. E por um sem-número de relatos, ela mesma orava de pé após o culto, com a congregação.

    Algumas citas:

    Testemunhos Seletos vol. 3, p. 193-203, ela apresenta as posturas adequadas e revela que "ao ser aberta a reunião com oração" devemos nos ajoelhar "na presença do Altissimo" (p. 195); porém ao mencionar as diversas ocasioes de oração antes e no decorrer do culto, ela não menciona mais essa exigência, embora dê diversos detalhes até mesmo como se portar nos corredores e dependencias da igreja.

    Sei que uma das citas preferidas para dizer que a oração de joelhos é uma exigencia vem de Testemunhos Seletos vol. 2, p. 311 quando EGW repreende ao ministro quando ele tenciona orar em pé e ela pede que ele se proste de joelhos pois esta "é sempre a posição apropriada". A palavra "sempre" dita aqui, vem da ediçaõ em inglês "always" que indica algo que é "perpétuo", "contínuo" e "sempiterno". Então se devemos ser inflexíveis quanto ao seu sentido, todas as ocasiões deveriam SEMPRE deveriam ser com essa postura. Mas como bem observa Mauro Bueno, citando Roger Coon, Phd, o contexto da cita nos indica que a ocasião em referência era uma reunião de culto sabática pela manhã, antes de EGW iniciar seu sermão. Então, a proposta corrreta com base na hermeneutica sadia deve ser apliacada para estes momentos: para nossos cultos sabáticos, esta deveria sempre ser a posição recomendada.

    Mauro Bueno também cita em sua obra, à pag. 75, um documento publicado pelo Ellen G. White Publications Office Document em 17 de fevereiro de 1960 escrito pelo filho de EGW, Arthur L. White, no qual há um testemunho de que pelo menos duas vezes em que se contou um grande número de testemunhas, EGW orou de pé. Ele diz que este não foi um caso isolado:

    1. na conferencia geral de 1909 ela fez um apelo e orou em pé com a congregação.

    2. na igreja de Oakland, Califórnia, em março de 1908 ela convidou a igreja a responder seu apelo e ficar de pé o orou no término do culto.

    Ao escrever uma carta a William H. Daylish, D. E. Robinson, um dos assistentes de EGW, escreveu em 1934:

    "Tenho estado presente repetidas vezes em reuniões campais e sessões da conferencia geral nas quais a própria irmã White tem feito orações com a congregação em pé e ela própria em pé. O pensamento de que na bênção final o pastor e a congregação devem ajoelhar´-se não é em parte alguma declarado nos Testemunhos ou na Bíblia"

    Seu outro filho William Clarence também declara em documentos que houve ocasiões raras em que a congregação se ajoelhava ao fim do culto para uma oração especial, mas isto, segundo ele, era algo "muito excepicional e muito incomum".

    Ora, se fosse de fato a única postura correta, EGW mesma estava contra sua prosposta. A declaração deve ser colocada em seu devido contexto. Então deveríamos publicar o texto na íntegra. Era em um começo de culto sabático de manhã.

    Fica o alerta de que sempre que tendemos para a inflexibilidade, corremos o risco de errar. O momento presente pede crentes centrados.

    Mas reconheço que em estudos teológicos, um completa o outro. Peço vênia ao sr. Jean para sugerir que reescreva seu artigo, se possível. Creio que poderia até mesmo ajudar sua igreja e seus leitores.


    Grande abraço

    Claudio Soares Sampaio
    Pastos adventista do Sétimo Dia em Minas Gerais
    Graduado em Teologia
    Pós-Graduado em Ciências da religião

    www.pastorclaudiosampaio.blogspot.com

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  4. Ola Pastor! Que o Senhor lhe abençoe.

    Agradeço os seus comentários e entendo a sua linha de raciocino, mas essas duas citações são demasiadas claras com relevância ao assunto: "Tanto no culto público como no particular é nosso dever prostrar-nos de joelhos diante de Deus quando Lhe dirigimos nossas petições. Este procedimento mostra nossa dependência de Deus”7.
    “Será possível que com todo o esclarecimento que Deus tem dado a Seu povo sobre a reverência, pastores, diretores e professores de nossas escolas, por preceito e exemplo ensinem os jovens a ficarem em pé na devoção, como faziam os fariseus?”8.


    Não vejo necessidade de rescrever meu artigo nem mudar de opinião. Apenas busco um equilíbrio referente a cada situação para que meu próximo não seja escandalizado. Ex: nunca me ajoelharei no meio da congregação quando a oração foi direcionada em pé, pois respeito a luz que cada um tem!

    Grande abraço.

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