quarta-feira, 20 de novembro de 2013

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Biografias - Uma Orgulhosa Polemica

Mediante a "grande" polemica quanto às biografia autorizadas ou não, o que dizer dos aspectos literários e biográficos dos quatro evangelhos?

Dos quatros evangelho e seus respectivos autores, Marcos e Lucas não pertenciam aos doze discípulos, então eles escreveram sobre Cristo baseados num processo de investigação de pessoas que conviveram com Jesus, o que poderíamos aplicar como sendo uma “biografia não autorizada”, embora as biografias de Cristo não são biografias no sentido clássico, como as que conhecemos hoje, os evangelhos retratam a sua história, portanto podemos sim, dizer que eles representam as suas biografias.

Como qualquer bom pesquisador, seria interessante investigar a construção dos pensamentos descritos nas quatro biografias, observando a sua lógica, limites e alcances de sua inteligência literária, e para analisar esses textos é necessário imergir no próprio texto e interpretá-lo multifocalmente e isento, tanto quanto possível, de paixões e tendências. Isso seria uma verdadeira e sincera busca literária para as compreensões dos fatos ali descritos.

No momento em que estamos, diante dos debates polêmicos, há inúmeras situações em que os artistas envolvidos, se declaram (ainda que nas entrelinhas) temerosos quanto a que tipo de informações será ou é descrita em tais biografias não autorizadas. Esse medo de fato é aceitável, uma vez que compreendemos por exemplo, que todo ser humano não tem naturalmente interesse algum que seus atos falhos sejam expostos de maneira publica, visto que uma biografia em geral sempre será analisada com uma profunda imersão que muita das vezes não estará isenta de paixões e tendências pela maioria dos leitores.

Agora repare, Mônica Bergamo (colunista do Folha) fez a seguinte declaração no TV Folha: “Um artista, um político, até um jornalista, ele faz a sua vida em uma relação com o publico, então o publico tem o direito de saber coisas sobre ele, agora, é tudo? Não! Por exemplo, o psicólogo do Chico Buarque não pode dar uma entrevista falando sobre o que o Chico Buarque fala, porque isso é intimo dele.”, e o cantor Roberto Carlos em entrevisto ao Fantástico afirmando ser a favor das biografias não autorizadas afirmou: “Sem autorização, porém, com certos ajustes, certas coisas que tem que acontecer... Isso tem que se discutir, são muitas coisas... Tem que haver um equilíbrio e alguns ajustes para que essa lei não venha prejudicar nem um lado nem o outro. Nem o lado do biografado nem o do biógrafo e que não fira a liberdade de expressão e o direito à privacidade.”. Em ambas as citações é tacitamente notável que há um interesse supremo de preservar o “vexame” por atos, fatos e atitudes tomadas em um passado que até o momento da possível publicação, estava “morto”.

Em contra partida, veja que paradoxo. Muitos afirmam que as biografias de Cristo são frutos da imaginação dos seus autores e que os relatos ali contidos não são verídicos, porém se os evangelhos fossem realmente fruto da imaginação literária, os autores não falariam mal de si mesmos, não comentariam a atitude frágil e vexatória que tiveram ao se dispersarem quando Cristo foi preso, demonstrando sua fragilidade e confusão.

Não relatariam que Pedro negou a Cristo e não somente uma vez, mas três vezes, mesmo tendo sido relatado anteriormente o juramento do mesmo de nunca negar o Mestre, e o mais intrigante de se pensar é: quem contou aos autores dos quatro evangelhos que Pedro negou a Cristo? Pedro estava só quando cometeu o ato e só Jesus, conforme descrito no evangelho de Lucas, teve a percepção e olhou para Pedro. Só nos resta uma escolha, ele mesmo! O discípulo teve a coragem de contar. Que autor falaria mal de si mesmo? Pedro não apenas contou os fatos, mas expôs os detalhes da sua negação.

Um dos artigos questionados pela ANEL (Associação Nacional dos Editores de Livros) previsto na Lei Nº 10.406, De 10 de Janeiro de 2002, determina que é preciso autorização para a publicação ou uso da imagem de uma pessoa. E que a divulgação de escritos, a transmissão, publicação ou exposição poderão ser proibidas se atingirem a honra, a boa fama, a respeitabilidade ou se tiverem fins comerciais.

E se essa lei tivesse vigor diante dos acontecimentos da era cristã, em que as biografias da vida de Cristo (que por conseqüência abarcam também aspectos da vida de Seus discípulos) estavam sendo escritas e publicadas, teríamos tamanho impacto pela sinceridade e coragem de afirmar suas próprias falhas? Creio que talvez fossem até mais impactantes, contudo resta-nos pensar até que ponto a lei e as intenções dos artistas atuais, afetam o relato literário, porque pela ótica dos evangelhos, o ato de revelar a falha tornou-se algo sublime e evidencia de modo bastante convincente a veracidade das histórias ali contidas.

Roberto Carlos, ainda em entrevista ao Fantástico declarou estar escrevendo sua autobiografia e quanto a isto afirmou: “Eu estou escrevendo a minha história e informando muito mais a essas pessoas sobre a minha vida, sobre as minhas coisas, muito mais que qualquer outra fonte... Eu vou contar tudo o que eu acho que realmente tem sentido de eu contar com relação aquilo que eu senti e que vivi.”, repare que anteriormente ele declarou concordar com uma biografia não autorizada sob as condições de ajustes e agora ele afirma que vai contar tudo o que ele mesmo acha ser conveniente de se relatar.

Se aplicarmos esta situação aos evangelhos notaremos algo extremamente intrigante, primeiramente porque todos eles são em teoria biografias não autorizadas, depois, que são quatro biografias relatando aparentemente a mesma história, contudo escritas por pessoas completamente diferentes umas das outras, com suas personalidades, profissões e históricos de vida distintos, o que consecutivamente influência drasticamente na sua visão de mundo. Diante disto, onde está o Biografado reclamando seus direito autorais? Onde está o Biografado, Cristo, acordando com os biógrafos quais fatos deveriam e quais não deveriam ser expostos? Em momento algum vemos essa interferência da parte de Jesus, até porque elas são escritas após a Sua morte, ressurreição e ascensão aos céus.

Se Roberto Carlos estiver certo quando afirmou isto, também ao Fantástico: “O biografo, ele pesquisa uma história que está feita pelo biografado, então na verdade, ela não cria uma história, ele faz um trabalho e narra aquela história, que não é dele, que é do biografado e a partir do que ele escreve, ele passa a ser dono dessa história, isso não é certo.”, podemos presumir que grande risco e paradoxalmente que grade amor Deus teve ao permitir que Seus escritores expressassem com suas próprias palavras os relatos de Sua vida.

É possível enxergar o quanto Cristo foi bem resolvido consigo mesmo quando esteve na terra, sua segurança era tão certeira que ao ter início os relatos biográficos, Cristo sabia que por Suas atitudes passadas, a vida de tais escritores seria tão profundamente impactada, que não sentiriam necessidade de esconder, manipular, mentir ou omitir fatos que envolviam não só a vida de Cristo, mas a de seus contemporâneos bem como a deles mesmo.

Mário Magalhães em entrevista ao TV Folha firmou que “não dá para o Brasil continuar tendo uma lei que impede que se conte a história de personagens que se tornaram, quase todos eles, figuras publicas por decisão própria.”, e que “a censura prévia é ante-democrática, ela fere os direitos gerais de liberdade de expressão e de informação estabelecidos na Constituição de 1988.”, pois bem, é perfeitamente compreensível e até aceitável tais afirmações, são escolhas de cunho próprio que colocam o artista ou personagem em evidência publica, e sim, todos tem o direito de expressão bem como de informação. Neste contexto, interessantemente Deus cumpri perfeitamente tais direitos, pois permitiu que quatro escritores relatassem por livre expressão linguísticas e cultural os fatos da vida de Cristo bem como respeitou a tal ponto o direito de informação de todo ser vivente, que fatos vergonhosos foram mantidos para a além de “à nível de informação”. O que na realidade, faz de Deus um artista destituído de vergonha ou orgulho, mas profundamente emergido em sabedoria ao preservar as falhas de Seus seguidores para o sublime cunho educativo bem como transformador da alma humana.

Jean R. Habkost
São Paulo, 11 de Novembro de 2013